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Reforma de português

Ter, 06/01/09
por gmfiuza |
categoria Reformas

Quantos portugueses são necessários para trocar uma lâmpada? E para trocar a língua? Resposta: meia-dúzia de patrícios para bagunçar o idioma e quase 200 milhões de brasileiros para se adaptar à bagunça.

Mas meia-dúzia agora é com hífen ou sem hífen? E o hífen continua sendo com h? Dizem que passará a se escrever yfen. Menos uma letra e um acento, faz sentido – dois toques a menos no teclado.

E já que pára e para serão escritos da mesma forma – o bom entendedor que se vire –, sem acento e sem assento também poderiam ser unificados. Pelo sentido da frase você deduziria se a supressão é para palavras ou para nádegas.

Mas chega de reclamar de barriga cheia. O brasileiro vai ter que rebolar, o estudante vai ter um stress a mais nas provas, empresas e instituições em geral terão um custo monumental para atualizar documentos e publicações, serão três anos de caos gramatical em que cada um escreverá como quiser – e cada leitor reclamará do que quiser, com razão –, mas você poderá bater no peito e dizer, orgulhoso, que a sua língua é idêntica à de São Tomé e Príncipe.

É muito importante a unificação desse bloco cultural. E essa unificação não podia deixar de ser feita de forma lusitana: a população de Guiné Bissau, que cabe numa Kombi, segura a lâmpada, enquanto a população brasileira, que ocupa um continente, gira a escada.

Nada contra o jeito português de ser. É só uma piada. Os donos de gráfica e de editoras de livro didático estão morrendo de rir.

Mas isso não vai ficar assim. Há notícias de que está em gestação no PT uma nova reforma, instituindo a língua presa como nosso idioma oficial. É a língua falada por nove entre dez representantes da nova elite brasileira. Este, sim, seria um grrrande avansso fofial.

2010, a bomba

Sex, 02/01/09
por gmfiuza |

Há exatos dez anos, tomava posse uma safra de governadores movidos por uma mesma, e nova na época, palavra de ordem: ajuste fiscal. Ali terminava a adolescência da administração pública brasileira.

Fora as pantomimas de Itamar Franco – que queria voltar a ser presidente e decretou a moratória mineira, desastrosa para o Brasil – governadores de todos os partidos assumiam decretando o fim da festa das máquinas estatais. Era o fim do almoço grátis consagrado por Brizola, Quércia, Maluf e companhia.

Até então, ajuste fiscal era palavrão de PFL. Dali em diante, virou princípio sagrado – subscrito, entre outros, por Lula em 2002, para sair da fila.

Mas Lula nunca se conformou muito com essa história de responsabilidade fiscal. Tapou o nariz e foi em frente, porque não iria mexer em time vencedor. Mas governar sem espalhar dinheiro por aí não tinha nada a ver com seus sonhos de poder.

Papai do céu é amigo de Lula e lhe deu seis anos de crédito farto e dinheiro barato no mundo. Daí nasceram 37 ministérios, emprego para a companheirada toda, dinheiro de graça para os pobres e os nem tão pobres, entre outras farras e bolsas – o paradoxo do populismo neoliberal.

Agora os deuses estão finalmente avisando que o bicho vai pegar. Mas quem são os deuses diante de Luiz Inácio da Silva?

Na posse dos novos prefeitos, dez anos depois do nascimento da responsabilidade fiscal, Lula deu um pito nos que prometeram austeridade. O presidente está mandando gastar. E está distribuindo dinheiro federal para a legião de prefeituras aliadas.

Ou seja: no alvorecer da crise, mantém seu credo de explodir os gastos públicos – agora com truques como o Fundo Soberano e seu cheque voador de 14 bilhões de reais.

A conta amarga dessa falsa prosperidade, evidentemente, só será conhecida por quem assumir o Brasil em 2011. E que ninguém duvide: a culpa será do novo mandatário.

Lula será bonzinho para sempre.

E o Natal continua

Ter, 30/12/08
por gmfiuza |

Na anestesia do fim de ano, eis que surge o IGP-M indecente: 9,8%, mais ou menos o dobro da previsão. É a vitória dos gladiadores de Lula contra o Banco Central, os defensores de “um pouco mais de inflação”.

Quando você estiver pagando seu aluguel mais caro, lembre-se que isso é o seu tributo ao governo popular – e seu Estado Papai Noel.

E o bom velhinho petista não deixa a companheirada sem presente, ou melhor, sem boquinha. O diretor-geral da Abin caiu em desgraça? Não tem problema: cria-se uma vida nova para ele em Portugal, com a invenção do cargo de adido policial, regado a uma merreca de 40 mil reais mensais.

Entendeu a receita de “um pouco mais de inflação”? É para o Estado poder gastar mais com o povo. E o povo, coitado, não pode viver sem uma boquinha em Lisboa.

Portanto, se o leitor acha que já paga impostos demais, e agora voltará a pagar o imposto inflacionário, pare de reclamar da vida. O problema é seu, que não se filiou ao PT.

Mas nem tudo está perdido. Não é possível que, com 37 ministérios inchados, você não conheça pelo menos um burocrata de terceiro ou quarto escalão. Descubra-o, e cole nele. Conquiste seu passaporte para a DisneyLula, onde a crise não existe.

Papai Noel existe (e é do PT)

Sáb, 27/12/08
por gmfiuza |

Este espaço teimou em duvidar do tal Fundo Soberano do Brasil. O cofrinho anunciado pelo ministro Mantêga – em linguagem debochada para chamar os jornalistas de ignorantes – seria capitalizado com o superávit primário excedente.

O que foi dito aqui é que, se houvesse excedente, não seria primário. Traduzindo: o superávit que o governo faz não é sobra, nem pode conter sobra, porque serve para abater a dívida pública. Por isso é primário.

Traduzindo de novo: superávit primário excedente é um aborto da natureza.

E esse aborto acaba de ser realizado com sucesso. Por medida provisória, o governo vai emitir 14 bilhões de reais para forrar o tal Fundo. Como a crise está aí e não há vestígio de dinheiro sobrando, se dará o milagre: o próprio governo vai aumentar o superávit primário em 14 bilhões de reais…

Cortar 14 bilhões para emitir 14 bilhões. Para que?

É simples. O dinheiro cortado é o do orçamento, carimbado, de gasto obrigatório em determinados fins, como a saúde pública. O dinheiro emitido para o glorioso Fundo Soberano do Brasil é bem mais livre, permitindo a Lula investir, com soberania, nos projetos de maior retorno eleitoral.

Como se vê, nem todos serão iguais perante a crise.

O milagre do PAC

Qua, 24/12/08
por gmfiuza |
categoria Dilma Rousseff, Lula, PAC

Junto com a chegada do Papai Noel, Lula, o bom velhinho, anunciou mais um presente aos brasileiros: o PAC da Copa.

Depois do PAC da dragagem do rio Sarapuí, do PAC do rombo da Petrobras, do PAC do calote do Equador, vem aí o PAC da Copa do Mundo de 2014. Até o Réveillon, o Brasil ainda ganha o PAC do cabeleireiro de dona Marisa.

O mais curioso é que, em plena contração econômica, essa sigla mágica de aceleração do crescimento continue ganhando as manchetes – a cada trocado que o governo promete desembolsar.

Caríssimos colegas editores, vamos fazer um minuto de reflexão neste Natal: o que significa um “PAC da Copa”? O que são “obras nos moldes do PAC”? Vamos parar de deixar essa sigla andando por aí sozinha, fazendo de graça a cama da mãe do PAC, a gerentona virtual do Brasil.

Um programa verdadeiro de aceleração do crescimento precisaria de pelo menos uma de duas condições: aumento da taxa de investimento ou redução dos custos de produção. O PAC não atende a nenhuma das duas.

Ou seja: é uma sigla cosmética, que faz o velho Orçamento da União parecer estar sempre saindo de um salão de beleza.

A única obra “nos moldes do PAC” vista até agora foi a que a candidata Dilma acaba de fazer com bisturi e botox. Essa realmente promete dar uma cara nova ao Brasil.

A patrulha avança

Seg, 22/12/08
por gmfiuza |

Como se sabe, os revolucionários do lulismo tomaram de assalto o Ipea e corrigiram o excesso de liberdade que vigorava no instituto.

Travaram a divulgação das projeções sobre inflação, na guerrilha ideológica que imaginam travar contra o Banco Central – o bicho papão do monetarismo que carrega Lula nas costas. Mas não foi só isso.

O concurso realizado pelo Ipea no último dia 13 mostra um pouco melhor a tentativa de lavagem cerebral dos robespierres de playground. Numa prova salpicada de teorias do sociólogo Francisco de Oliveira, o totem da esquerda que rompeu com Lula por achá-lo neoliberal (mas depois reatou, porque ninguém é de ferro), há pérolas inesquecíveis.

“A especulação financeira vislumbra como luz no fim do túnel o brilho do Tesouro Nacional.” Sentiram a barra? Pura poesia petista contra o “mercado”.

E tem mais literatura: “Sem a conversão dos fundos públicos em pressuposto geral do capital, a economia produtiva capitalista é insustentável.” Só faltou uma epígrafe de José Alencar pedindo a queda dos juros e xingando a agiotagem da globalização.

Repetindo: isto não estava num panfleto saído de uma assembléia do PT, mas na prova do concurso do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, uma das reservas nacionais do saber. Nem os milicos em plena ditadura foram tão ousados.

Nessa marcha, o Brasil ainda vira uma barricada da nostalgia marxista.

Tarja preta

Sex, 19/12/08
por gmfiuza |

As celebridades não podem mais anunciar remédios. É uma medida do governo popular para proteger o consumidor inocente. Vai que o Kaká aparece na TV mandando beber água sanitária… Melhor prevenir.

A legislação detalhista dos amigos do povo determina que a propaganda informe sobre os males causados pelo produto. É como se, quando anunciar um lançamento imobiliário na Barra da Tijuca, Fernanda Montenegro devesse avisar que na porta passa um canal cheio de esgoto.

Talvez fosse interessante estender a regra à propaganda política – formal e informal. Quando Lula dissesse que a crise será só uma marola no Brasil, seria obrigado a explicar que aquilo eram palavras para melhorar o astral. Um placebo, sem contra-indicação.

Se a lei é boa para os remédios, por que não estendê-la a outras substâncias potencialmente danosas? Juliana Paes não poderia mais aparecer na TV anunciando “a boa”, porque como ela é boa (a atriz, não necessariamente a cerveja), poderia induzir o pobre do consumidor a achar que a bebida será boa para ele – ou até, quem sabe, que lhe traria um peixão do quilate de Juliana.

Os burocratas do governo popular ainda vão decidir que só mulher feia pode gravar propaganda de cerveja.

A decisão da Agência Nacional de Vigilância Sanitária ainda proíbe o uso de verbos no imperativo (use, tome, compre etc). Entenderam a sutileza? Na cabeça dessa turma, a consciência do povo varia conforme o tempo verbal.

Nunca se viu tanto apreço pela liberdade.

A ética do sapatão

Ter, 16/12/08
por gmfiuza |
categoria Guerra

O mundo do bem está em festa. Um repórter franco-atirador iraquiano arremessou um sapato contra George Bush. A euforia se divide entre os que lamentam o alvo não ter sido atingido, e os que acharam mais eficiente a abaixadinha ridícula do presidente americano.

O mundo do bem detesta Bush, mas é igual a ele. Invadir um país é uma violência. Arremessar um sapato é uma violência.

Mas é bem diferente, dirão os anti-Bush. Realmente é. Tão diferente quanto ser subornado com um Land Rover ou com uma bicicleta. Pelo visto, bicicleta pode. Sapato também.

A euforia com o atentado calçadista contra Bush guarda um parentesco arrepiante com outra. Teve gente “do bem” disfarçando mal sua alegria com a tragédia do 11 de setembro. Gente esclarecida que, no fundo, acredita que Bin Laden deu uma lição merecida no império yankee.

Os que gostaram da sapatada de novo vão gritar que é diferente. Na derrubada das torres gêmeas foram sacrificados milhares de inocentes. Se o salto do sapato iraquiano abrisse um talho na testa de Bush, a inocência estaria a salvo.

A inocência e a covardia também. Saddam Hussein jogaria um sapato em Bush. Bush jogaria um sapato em Bush. Atirar sapatos numa coletiva de imprensa, atirar pedras na Faixa de Gaza e atirar bombas no Oriente Médio são capítulos da mesma escalada.

Bush está indo embora, mas os bonzinhos que o detestam estão tratando de eternizar seu legado de estupidez.

A catedral está salva

Sex, 12/12/08
por gmfiuza |

O governo federal vai reduzir impostos. E isto não é uma manchete do “Casseta & Planeta”. Mas também não é a cura da lombriga estatal.

Com a crise se anunciando, o termômetro eleitoral já deu o alarme. Com recessão no próximo ano, 2010 será do inimigo. E aí a companheirada vai ter que procurar emprego.

A carga de impostos no Brasil, que é absurda desde os anos Fernando Henrique e depois piorou, passando de um terço do PIB, leva agora um cartão amarelo. Foi no susto, mas é melhor do que essa conversa fantasiosa de reforma tributária.

O curioso é que o cabide permanece imune a crises. O governo decide reduzir significativamente sua arrecadação com o Imposto de Renda, e a catedral de repartições do governo Lula, com seu recorde de 37 ministérios, segue intocável.

Mais uma vez, é claro, a conta não fecha. Como os anúncios de cortes orçamentários são obra de ficção (o próprio orçamento é ficcional), tem toda a pinta de que o governo vai enfiar a mão de novo no saco sem fundo do Banco do Brasil e da Caixa Econômica.

A notícia é esta: mesmo que o mundo acabe, a boquinha dos companheiros estará a salvo.

Ensaio sobre a surdez

Qua, 10/12/08
por epoca |

Foto: Michel Filho.jpg

Não quero ouvir os tiros.
Também não quero ouvir a indignação.

Não se choquem com esse flagrante pornográfico da violência urbana. Por favor, não façam um relatório. Não chamem a Anistia Internacional. Não acionem os burocratas. Não transformem minha dor num projeto de lei.

Estou bem na foto. Estou protegendo os meus sentidos.

Se na próxima passagem desse revólver pela porta da minha casa acontecer o pior, talvez vocês nem fiquem sabendo. É normal que não sintam a minha falta. Também não sentirei falta da indignação de vocês. Se ela morrer, assim como eu, tanto faz.

Neste Dia Internacional dos Direitos Humanos, faça uma boa ação. Delete um email de solidariedade hipócrita, sem passá-lo adiante. Deixe um pregador “progressista” falando sozinho. Salve alguém de ler um paper da ONU.

Não assista ao show de algum artista decadente em benefício das criancinhas da África.

Neste Dia Internacional dos Direitos Humanos, desconfie da indústria da indignação e da comiseração. Não compre pacotes prontos de bondade. Desempregue um despachante da dor alheia.

Tente fazer ou, ao menos, sentir alguma coisa você mesmo, sem intermediários. Se não conseguir, não faça nada. Será melhor.

Discurso imaginário de uma criança no morro da Mangueira, Rio de Janeiro, fotografada por MICHEL FILHO em 5/12/2008.

PS: Leia texto do jornalista Jorge Antônio Barros, repórter laureado na área de segurança pública, sobre o “Dia do Outro”.


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