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Dantas, o troféu

Qua, 03/12/08
por gmfiuza |

Anotem aí porque esta é inédita: nunca antes na história deste país um ministro da Justiça veio a público tomar o partido de um juiz. E logo de um juiz que afrontou o Supremo Tribunal Federal.

Como já se sabe, um juiz espetaculoso e um delegado federal ligado ao PSOL escreveram a quatro mãos a última novela das oito, Operação Satiagraha. Após uma investigação preguiçosa e apressada, jogaram o vilão na cadeia.

Se bem investigado, Daniel Dantas talvez se confirme como o rei do tráfico de influência no Brasil. Mas a dupla impronunciável Protógenes-De Sanctis preferiu o folhetim, e desenhou o banqueiro como o “chefe de uma organização criminosa”, na terminologia pirotécnica com que essa turma costuma concorrer às manchetes.

O processo contra Dantas, infelizmente, é pífio. Nada contundente, nada conclusivo. Por isso ele está solto. Só por isso.

Aí vem a sentença carta marcada: dez anos de prisão fechada para o banqueiro. Anotem aí novamente: será derrubada no primeiro recurso. Não porque Dantas é bonzinho. Apenas porque o processo é um lixo.

Mas eis que entra em cena o ministro da Justiça, Tarso Genro, chefe da central de conspiração e militância chavista do governo federal, para comemorar a decisão de um juiz de primeira instância. Vale reproduzir o arroubo ideológico do ministro de estado: “O povo não está acostumado a ver figurões processados pela Justiça. Ninguém está acima da lei.”

Pronto. Para quem ainda tinha dúvidas, esclarecido está. Daniel Dantas é um estandarte político do governo Lula. Seu processo é um panfleto.

Seria estranho um ministro da Justiça sair comemorando, do nada, uma sentença de um juiz altamente questionado nos meios jurídicos. Só não é estranho porque Lula pediu a seus prepostos a prisão de Dantas como um troféu. Pelo visto, a qualquer preço.

Dá até para imaginar a corriola reunida num gabinete do Planalto, repetindo a coreografia do top top imortalizada por Marco Aurélio Garcia. Uma imagem para a posteridade do estado de direito.

A enchente e o ralo

Seg, 01/12/08
por gmfiuza |

O ministro Mantêga (com a reforma ortográfica, os acentos passam a ser colocados onde fizerem mais sentido) disse que a crítica geral à operação Caixa 2 – 2 bilhões da Caixa enterrados na Petrobras – é uma piada.

Como se sabe, esse governo ri à toa, com sua popularidade imune a trapalhadas. Mantêga disse que não há motivos para histeria, porque a Petrobras é sólida.

O problema é que, em se tratando de manejo do dinheiro público, no governo Lula tudo que é sólido se desmancha no ar. A solidez depende do número de goteiras, infiltrações e puxadinhos que os cabides partidários e ideológicos demandarem.

Num momento de alarme da infra-estrutura nacional e ameaça de calamidade, há 2 bilhões de reais da Caixa Econômica presos na Petrobras e mais de 10 bilhões de reais do BNDES prontos para virar pó nos vizinhos bolivarianos.

É no mínimo aflitivo imaginar que o Brasil mantém mais de cinco Santa Catarinas investidos na aventura caloteiro-chavista de Bolívia, Equador, Paraguai e Venezuela.

Esse dinheiro não é como o Land Rover que Silvinho Pereira aceitou da fornecedora da Petrobras: ele não volta. Forrará a caixinha revolucionária dos Guevaras de carnaval até o último centavo, como um monumento à generosidade bolivariana do governo brasileiro.

Se o Brasil não evita as enchentes, certamente não é por falta de ralos.

É por essas e outras, ministro Mantêga, que quando o assunto é dinheiro estatal no Brasil, a piada já perdeu completamente a graça.

Caixa 2.BR

Sáb, 29/11/08
por gmfiuza |

No auge da crise mundial de crédito, a Caixa Econômica empresta 2 bilhões de reais à Petrobras – na operação que já está sendo chamada de “Caixa 2”.

A instituição mais importante do país para investimento em saneamento – essas obras que evitam enchentes – gasta o dobro do que Lula destinou a Santa Catarina para tapar um buraco de caixa na multinacional brazuca.

O curioso é que até outro dia, segundo a ministra Dilma Rousseff, a Petrobras ia acabar com a pobreza em 15 anos com o dinheiro do pré-sal. Outra curiosidade é que, do orçamento mágico do PAC, um quarto são as previsões orçamentárias da Petrobras…

Entenderam? A maior empresa brasileira, orgulho do estatismo lulista, sustentáculo da magia do PAC e redentora da pobreza nacional, precisa de um qualquer na veia para chegar ao dia de amanhã.

E no momento em que o país se ressente da falta de crédito e da falta de saneamento, esse troco de 2 bilhões é sugado da principal fonte de crédito para o saneamento.

Nos tempos do valerioduto, as estripulias do estatismo petista eram mais encabuladas.

Santa Catarina, Equador

Qua, 26/11/08
por gmfiuza |

Até hoje se discute o quanto a devastação de Nova Orleans pelo furacão Katrina teve da mão de Deus e da mão do homem (Bush). Lula já está afinando o discurso para não virar o culpado da enchente em Santa Catarina.

Uma penca de governantes já levou a culpa pelas inundações na região do Tietê e da Praça Mauá. Todos devem ter tido um pouco de culpa, mas, fora a parte de São Pedro, é um pouco como reclamar com o prefeito de Veneza que a cidade está afundando. Esse julgamento teria que remontar à Idade Média.

Há carência de infra-estrutura em todo o território brasileiro. A tragédia homeopática das estradas arruinadas mata mais que todas as enchentes e secas juntas. Mas é homeopática, choca menos…

Nessa hora, não adianta a opinião pública ficar olhando para os governantes como assassinos. Melhor examinar a complacência geral com a má administração – um crime homeopático.

As tais “obras do PAC”, por exemplo, viraram uma entidade, um bordão, um mito da aceleração do crescimento. É o país da sigla e do slogan. Uma salada orçamentária de gaveta gera a cifra cabalística de 500 bilhões de reais e o brasileiro já sente a pança forrada. Viva o PAC, seja lá o que ele for.

E o que ele for, em qualquer hipótese, não é aumento de investimento público. É aí que o debate nunca chega: a relação entre os cabideiros do governo e os buracos nas estradas. O que falta nas benfeitorias estruturais é o que sobra nas benfeitorias políticas.

É essa orientação que faz o governo Lula enterrar com o BNDES 250 milhões de dólares no Equador, para brincar de revolução com o populista local. Os calotes sofridos com a aventura cocaleiro-bolivariana ao lado do companheiro Evo Morales não ensinaram nada.

Não adianta partir de uma tragédia natural para crucificar o governo. A tragédia antinatural da administração pública desfila diariamente na cara de todos.

PS (Pausa para o Sacoleiro): este signatário autografa o livro “Amazônia, 20º andar” (Record) nesta quinta-feira, 27, no Rio de Janeiro (Travessa do Shopping Leblon, 19h).

O desespero de FH

Sáb, 22/11/08
por gmfiuza |

O ex-presidente Fernando Henrique passou do tom, ao mandar Lula “parar de falar bobagem”. Perdeu o rebolado.

Para piorar, nota-se no seu discurso aos prefeitos eleitos do PSDB uma certa excitação com a crise econômica. Como se ela pudesse salvá-lo da surra de popularidade que vem levando do atual presidente.

A história pregou uma peça em FH. Condenou-o a uma espécie de tortura moral – ter que ver o adversário reinando no castelo construído por ele.

No discurso aos tucanos, animado pela crise, o ex-presidente solta mais uma vez seu grito para que não se acredite em tudo que Lula diz. É quase um ato de desespero.

Fernando Henrique, Pedro Malan e equipe tiraram a economia brasileira da adolescência. Fizeram uma revolução institucional, hoje reconhecida por qualquer pesquisador isento. Tiraram do Brasil o figurino de terceiro-mundista chorão. Puseram o país na era da responsabilidade.

Politicamente, o herdeiro dessa transformação foi Lula. Um líder importante para o Brasil, por despertar a identificação dos brasileiros. Uma encarnação orgânica da idéia democrática de representação.

Lula jogou fora as teses do seu partido, tomou posse das transformações do seu antecessor e encastelou-se no seu próprio símbolo. Desse lugar seguro, inexpugnável, disse ao povo que recebeu uma herança maldita do neoliberalismo e que consertou-a com sua sensibilidade social. O sofisma mais perfeito da história brasileira.

Fernando Henrique tornou-se um prisioneiro político da retórica. Caiu na masmorra do imaginário nacional, de onde seus gritos são inaudíveis.

A crise internacional parece reacender nele a esperança de que sua voz reapareça com a queda das paredes do castelo. Castelo que ele mesmo construiu. Uma esperança mórbida.

Obama e Osama, os eleitos

Qui, 20/11/08
por gmfiuza |
categoria Imprensa, Obama

O mundo escolhe seus símbolos. O maior deles hoje é Barack Obama, o anjo negro, o redentor da esperança. Com a outra mão, o mundo abençoa a autoridade máxima do terrorismo.

Circulou por todo o planeta o recado do “número dois” da Al Qaeda, esculhambando Obama como um negro de segunda classe.

O recado de um líder ou sublíder de uma organização clandestina, amorfa, escondida entre os mundos mítico e virtual, não é um recado. Não é uma mensagem. Não é um discurso. Não é nada. Só passa a ser, quando o mundo civilizado lhe serve de porta-voz.

A Al Qaeda não é o ETA, não é o IRA, não fala com ninguém, não negocia com ninguém, não existe institucionalmente, nem politicamente. É só um jato de terror disforme, que ninguém jamais descreveu ou identificou com um mínimo de exatidão. É “a organização de Osama Bin Laden”, como se isso quisesse dizer alguma coisa.

O mundo civilizado é o assessor de imprensa da Al Qaeda. Ele justifica e unifica um varejão de almas penadas dispostas a amarrar uma bomba na cintura. Os jornais e TVs do ocidente dão organização e identidade a essa geléia do horror.

O “número dois” cospe um insulto qualquer na internet, e a mídia civilizada transforma em manchete. “Os cachorros do Afeganistão acharam deliciosa a carne dos soldados americanos”. Os facínoras devem estar morrendo de rir nas suas cavernas.

E por que “número dois”? Se conferimos a esse sujeito tamanha autoridade, talvez fosse mais apropriado começar a chamá-lo de vice-presidente do conselho, ou chanceler, ou quem sabe “príncipe da Al Qaeda”.

Mas não é justo deixá-lo falando sozinho. É urgente vasculhar na internet as opiniões do “número dois” de Fernandinho Beira-Mar. Com um pouco de sorte, também se localiza por aí o número dois do Maníaco do Parque.

Aliás, os jornalistas econômicos estão perdendo tempo com as enrolações do G-20. Esses sites piratas da Al Qaeda são muito mais afirmativos. Vai ver, a saída para a crise do capitalismo já está lá.

Os porões da democracia

Ter, 18/11/08
por gmfiuza |
categoria Justiça

O juiz candidato a mocinho da novela Satiagraha não quis só julgar com a luz dos holofotes. Na sua sanha de jogar o banqueiro na cadeia e correr pro abraço, fez mais do que tentar desqualificar a corte suprema.

Fausto de Sanctis, o justo, mandou grampear por nada menos que dois meses e meio o telefone do advogado Sérgio Tostes. A voz dele aparecera numa escuta da operação Satiagraha, em conversa com Naji Nahas (seu cliente em outro processo).

Isto foi o suficiente para o Torquemada moderno transformar o profissional do direito em suspeito. E espionar, por exatos 75 dias, todas as suas conversas, com todos os seus clientes.

O que impressiona não é só um juiz atuando como inquisidor, em pleno século 21, e sendo saudado como herói. A pergunta é: de onde vem tanta valentia para esse arrastão “em nome da ética”?

Até as maçanetas do Palácio do Planalto sabem a resposta.

Essa onda persecutória no topo da República é compreensível. A esquerda se cansou de ver a ditadura usar o poder para vasculhar a vida do cidadão. Agora é a vez dela. Torturar não dá mais. Mas conspirar com dossiês e arapongagem está na moda de novo.

A novidade é que o Superior Tribunal de Justiça acaba de decidir que o grampo no telefone do advogado Sérgio Tostes foi abusivo e ilegal.

Se a moda do bom senso pegar, a novela Satiagraha e seus Torquemadas passarão à história como o último entulho autoritário travestido de “ética progressista”.

Tudo bem em Washington

Dom, 16/11/08
por gmfiuza |

O G-20 se reuniu e apontou o caminho da salvação. Vejam a contundência do que foi decidido:

“Nosso trabalho será guiado por uma crença compartilhada de que os princípios do mercado, o comércio aberto e os regimes de investimento, mercados financeiros efetivamente regulados alimentarão o dinamismo, a inovação e o empreendedorismo que são essenciais para o crescimento econômico, emprego e redução da pobreza.”

No momento em que saiu o documento, foi uma correria em Washington para localizar Madame Natasha, a famosa professora de piano e português. Era preciso traduzir a decisão histórica para os brasileiros.

O telefone da velha senhora foi conseguido com o jornalista Elio Gaspari, e ela socorreu de pronto os párias do idioma:

“O G-20 quis dizer que a reunião foi ótima, a comida estava uma delícia e se Deus quiser essa crise vai embora.”

Alívio geral.

PS: Ainda não foi desta vez que o pessoal da boquinha (Lula, Mantega e cia) conseguiu criar o novo superministério internacional de supervisão de crises. Mas a companheirada não precisa temer. Outros cabides virão.

Uma novela desapaixonada

Qui, 13/11/08
por gmfiuza |

A Polícia Federal ia acabar com a raça de Daniel Dantas. Montou a novela Satiagraha, que a opinião pública – sempre esperançosa – recebeu como a redenção nacional contra a impunidade. Hoje é forte candidata ao hall dos micos de 2008.

A apuração dos fatos vai confirmando aquilo que só não viu quem não quis: o delegado montou seu circo e chamou em off os holofotes. Venham todos ver Daniel Dantas algemado. Hoje tem marmelada!

Esse espetáculo mambembe, coadjuvado por um juiz espetaculoso – que já caiu no ridículo ao querer dar ordens à corte suprema e levar um carão em público –, vai sendo recauchutado ao sabor do freguês, o bom e velho Palácio do Planalto.

Dali veio a ordem para a PF barbarizar o banqueiro. O objetivo principal foi alcançado: a fotografia do banqueiro indo em cana. A opção da investigação séria ficou em segundo plano, encoberta pela literatura ideológica do delegado e do juiz.

O resultado era óbvio: o suspeito está a salvo. E os mandantes palacianos do circo pegaram a vedete para bode expiatório. A culpa é do Protógenes, subitamente acusado de promiscuidade com a imprensa, com a Abin e com o capeta.

Um grande aperitivo para o copidesque do relatório Satiagraha, uma espécie de vale a pena ver de novo, tentativa de salvar a foto do banqueiro preso. Ela ficaria tão boa na TV em 2010…

Aí vem o ministro Tarso Genro, chefe da central conspiratória, defender o remake da novela. Trata-se de um relatório “desapaixonado”, concluiu o ministro, informando que não o leu.

Compreende-se. Provavelmente teria lido se fosse apaixonante.

Não dá para antever o fim da novela Satiagraha. Mas a essa altura, ao que tudo indica, nem beijo gay dá jeito.

G-20, a pantomima

Seg, 10/11/08
por gmfiuza |

Em pleno campo minado da crise internacional, uma reunião entre os maiores países industrializados e emergentes presidida pelo chapliniano Guido Mantega chega a “conclusões” que remontam às cartilhas petistas pré-2002.

Poderia ser um susto. Mas é um alívio.

O alívio está justamente nas diretrizes apontadas ao fim do encontro do G-20 em São Paulo, e repetidas por Lula em Roma:

Mais produção que especulação.
Mais Estado que mercado.
Aumento dos gastos públicos.
Mais humanismo que financismo.
Revisão do Consenso de Washington.
Revisão do Tratado de Bretton Woods.

Entenderam?

Não? Então aqui vai uma tradução resumida. Percebendo que o G-20 não é nada (solenemente ignorado por Barack Obama), e se dando conta de que a turma ali reunida rendia não mais do que uma boa fotografia (os ternos estavam ótimos, mas os alfaiates insistem em não produzir estratégias econômicas), o pessoal tomou a decisão certa: dar ao mundo um pouco de poesia.

Numa hora dessas, ouvir falar em humanismo, produção e dinheiro de graça para o povo é um alívio e tanto. Esculachar o liberalismo – no qual todos surfaram nos últimos anos – também é música para os ouvidos da opinião pública.

Fica combinado assim: na falta de solução, rima. Como se sabe, poesia de esquerda é como um broche de Che Guevara: pode até não servir de enfeite, mas não faz mal a ninguém.


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